Portaria remota. Inevitável? – Parte I

Porteiros, zeladores e profissionais de limpeza são a base da engrenagem condominial, responsáveis por manter o dia a dia em ordem e garantir a segurança e o bem-estar dos moradores. Entretanto, vivemos um momento de transição, impulsionado pela tecnologia, que já transformou muitos setores e promete mudar ainda mais a rotina dos condomínios.

A portaria sempre foi uma área sensível dentro do ambiente condominial. Os porteiros, muitas vezes, enfrentam situações delicadas, lidando diretamente com moradores, visitantes e prestadores de serviço. Historicamente, a portaria presencial, com profissionais trabalhando em turnos de 12×36, é o modelo predominante. Cada condomínio precisava manter pelo menos quatro porteiros para cobrir toda a semana, incluindo fins de semana e feriados. Isso, porém, traz custos elevados e, não raro, acúmulo de funções — o porteiro que cuidava também da piscina, do jardim ou da zeladoria.

Com o avanço da tecnologia, surgiram novas modalidades: a portaria virtual, onde o controle é feito por softwares e equipamentos sem presença física; e a portaria remota, na qual o atendimento ocorre à distância, a partir da central de uma empresa especializada. Apesar de parecer uma solução moderna e econômica, a portaria remota não é adequada para todos os condomínios. Cada caso precisa ser avaliado conforme o perfil dos moradores, a estrutura do prédio e a cultura interna.

Recentemente, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) julgou válida a cláusula da convenção coletiva que impõe o pagamento de multa e a manutenção de ao menos dois postos de trabalho quando um condomínio demite seus porteiros próprios para contratar uma empresa de portaria remota. A penalidade equivale a dez salários-mínimos. O objetivo da norma é preservar empregos e proteger a categoria.

Destaque-se em compreender a importância de valorizar esses profissionais, mas lembre-se que os condôminos enfrentam cada vez mais dificuldades financeiras. Os moradores já lidam com o aumento contínuo das despesas, remédios caros, inflação e contas que não param de crescer. Impor mais uma multa ao condomínio é penalizar quem já está sobrecarregado.

O posto de trabalho não é eterno. A dinâmica do mercado muda, e o progresso é inevitável. Assim como os cobradores de ônibus deram lugar às máquinas automáticas e os antigos fabricantes de rodas de carroça precisaram se reinventar com a chegada dos automóveis, os profissionais da portaria também enfrentarão transformações. A tecnologia veio para ficar. Já mudou e vai mudar ainda mais. É preciso se adaptar, aprender novas funções e buscar capacitação.

Além disso, o excesso de regulamentações pode acabar onerando os próprios moradores, que são quem realmente sustenta o condomínio. O condomínio não tem dinheiro; quem tem é o condômino. É ele quem paga as contas, e precisamos ter cuidado para não inviabilizar financeiramente o sistema.

Dentro de um condomínio, as áreas mais sensíveis são a limpeza e a portaria. Se o pessoal da limpeza falta, todo mundo percebe; se o porteiro falta, o condomínio para. São funções essenciais que merecem respeito e reconhecimento.

O debate mostra que a transição tecnológica é inevitável, mas deve ser feita com equilíbrio. O progresso não pode ser barrado, mas também não deve atropelar o fator humano. O futuro da portaria, seja presencial, remota ou híbrida, passa por um caminho de adaptação, diálogo e bom senso entre síndicos, administradoras, funcionários e moradores.

O avanço da tecnologia é como uma locomotiva: quem tentar pará-la será atropelado. O melhor caminho é aprender a conduzi-la.

Vivam a vida, e até a próxima.

Ivan Horcaio

Professor e palestrante com mais de 20 anos de atuação nas áreas do Direito Condominial e Direito Imobiliário, é autor de mais de 12 obras jurídicas, atuando junto a condomínios, administradoras de condomínios e imobiliárias

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